A primavera da vida de Cora Coralina

A PRIMAVERA DA VIDA DE CORA CORALINA

Cora Coralina é uma personalidade rara, cuja biografia se revela como obra. Sua vida foi coerente, verdadeira e profundamente conectada com a natureza. Escreveu sobre tudo o que acreditava e também sobre o que desejava deixar como legado. Em suas palavras, “sua poesia era objetiva e concreta” e, em minhas palavras, de uma sensibilidade ímpar.

Durante minha Formação Biográfica, uma das tarefas a serem compridas para a certificação é a escolha de uma personalidade já falecida para ser estudada em profundidade a partir das leis biográficas que regem o desenvolvimento do ser humano. Não tive dúvidas quanto à minha escolha. Embora, na ocasião, não conhecesse a biografia de Anna Lins, que mais tarde se fez Cora Coralina, já havia sido tocada por sua poesia e, de forma intuitiva, a escolhi. Hoje percebo que o encontro com ela me modificou profundamente. Sua história calou fundo a  minha alma.

Em O caminho de Cora – Genealogia, falei um pouco de suas raízes. E no presente artigo desejo trazer informações sobre sua juventude, desde o nascimento até os seus 20 anos, período em que no aconselhamento biográfico denominamos como Primavera. Neste período da vida, o mote do ser humano é o aprender, a partir do que ele recebe do mundo externo, conforme descrito no artigo A Primavera da Vida.

PRIMEIRO SETÊNIO (0-7 ANOS)

Anna Lins dos Guimarães Peixoto nasceu no dia 20 de Agosto de 1889 na Casa Velha da Ponte que se localiza na atual cidade de Goiás. Era a segunda filha do casal Jacyntha Luiza do Couto Brandão e Francisco Lins dos Guimarães Peixoto. De Jacyntha, Aninha era a terceira filha, pois havia a primogênita que era fruto do casamento com seu primeiro marido, de quem ficou viúva antes do matrimônio com Francisco.

Um mês e 25 dias após seu nascimento o pai falece, deixando a Casa da Ponte viúva da presença masculina e dona Jacyntha com três filhas para criar em uma casa com oito mulheres.

Era um momento financeiro difícil para a família. Anna Lins nasceu um ano após a Abolição dos Escravos e a família era dependente da mão de obra escrava na ocasião. Além disso, as mulheres não tinham renda própria e Francisco, apesar de ser desembargador, não lhes deixou uma pensão. Sendo assim, passam a ser sustentadas pelo avô e irmão de Jacyntha, que naquela ocasião moravam na fazenda da família.

Casa Velha da Ponte, década de 1980 – Goiás – GO

Quando Aninha estava com 3 anos de idade, Jacyntha teve sua 4ª filha, fruto de uma relação provavelmente ilegítima. Sendo assim, a pequena menina perde o lugar de caçula e se sente bastante indesejável.

Em suas palavras: “Cresci filha sem pai, secundária na turma das irmãs. Eu era triste, nervosa e feia. Amarela de rosto empapuçado. De pernas moles, caindo à toa. Retrato vivo de um velho doente. Indesejável entre as irmãs. Sem carinho de Mãe.” Cora Coralina – Poemas dos becos de Goiás e estórias mais

Aos 5 anos, Anna é crismada e ganha da madrinha um pássaro em uma gaiola, lhe falta um vintém para comprar banana e alimentá-lo. Então, ela precisa abrir a gaiola e soltá-lo. Este episódio a marcou como um lugar de escassez. Mais tarde escreve “Vintém de cobre” e o dedica à madrinha e mestra Silvina.

Como criança, Anna não era valorizada por sua família. Ainda assim, fez do seu mundo interno algo muito bom, ao se refugiar no quintal onde entrava em contato com a terra, brincava com as formigas, com os pássaros e as plantas. Seus sentidos foram aguçados, brotou a crença no transcendente e passou a sentir a presença do seu anjo da guarda, que a acompanhou por toda a vida.

Tinha seu ‘ninho’ em Mãe Didi, ex escrava que morava com ela, entre as oito mulheres que habitavam a Casa Velha.

“Foi uma ex-escrava que me amamentou no seio fecundo. Eram seus braços prazenteiros e generosos que me erguiam, ainda rastejante, e Aninha adormecia, ouvindo estórias de encantamento. Minha madrinha Fada (...) Toda melhor lembrança da minha pueria distante está ligada a essa antiga escrava. No tarde da minha vida assento o seu nome na pedra rude do meu verso: Mãe Didi.” Cora Coralina - Poesia emoldurada na parede do quintal da Casa de Cora – Cidade de Goiás

Com relação à madrinha e mestra Silvina tinha a mais profunda gratidão, pois teve muita dificuldade para aprender a ler, sendo da turma das mais atrasadas. A mestra, entretanto, embora exigente se empenhou para que Aninha aprendesse. Com a leitura, o mundo se abriu para a pequena menina.

Casa onde morou mestra Silvina, 2009 – Goiás – GO
SEGUNDO SETÊNIO (7-14 ANOS)

Aos 7 anos é obrigada a deixar a escola, após estudar seu segundo e último livro. Mestra Silvina foi, portanto, sua única professora por dois anos consecutivos de estudo. Se encanta com a leitura e passa a viver através das histórias que lê.

Quando está com 11 anos, sua irmã mais velha casou-se e a mãe se endividou para pagar o casamento da filha. A situação financeira, que já estava difícil piora, então a família aluga a Casa Velha e muda-se para a fazenda Paraíso onde morava o avô. Lá, Anna entrou em contato com a gleba e com uma prática que a acompanharia por toda a vida: a contação de histórias que acontecia entre as mulheres que habitavam a fazenda. Houve um despertar sinestésico da menina Aninha. Onde antes, na Casa Velha, havia escassez na fazenda havia abundância de vida e de natureza. Acostumou-se a ler, além de romances, o jornal ‘Paiz’ que a mãe recebia na fazenda. Descreveu esse período na fazenda como uma época de alegria e paz. E isso fez com que ela pudesse ter contato com o belo da vida.

Currau da Fazenda Paraíso, 2009 – Mossâmedes – GO
TERCEIRO SETÊNIO (14-21 ANOS)

Com 14 anos começa, de fato, a escrever. E envia o que chamava de “seus escritinhos” aos jornais. Escrevia inspirada nos sentidos desenvolvidos com o contato com a terra.

Quando estava com 16 anos, a família retorna para a Casa Velha da Ponte e Anna ingressa de corpo inteiro à vida literária goiana. Aos 17 anos começa a frequentar o Grêmio Literário Goiano. Aos 18 anos funda, com outras quatro jovens, o semanário ‘A Rosa’ em papel cor-de-rosa, veículo das ideias do movimento literário feminino em Goiás.

E aos 19 anos adota pseudônimo de Cora Coralina.

Entre 1907 a 1910 tem colunas fixas em inúmeros jornais da cidade, a exemplo das nos jornais ‘Goyaz’, ‘A Imprensa’ e ‘Triângulo Mineiro’, onde publicava contos. Publicava também no jornal ‘O Paiz’ (RJ), um dos mais importantes da época.Tem seu elogiado conto “Tragédia na roça” incluído no Anuário Histórico, Geográfico e Descritivo de GO.

Sentia-se reconhecida entre seus pares intelectuais, e não se inibia por sua formação ser teoricamente inferior, uma vez que ela só estudou dois livros na escola. Compensava este fato com o fato de ser uma leitora voraz.

Naquela época, começa a se preocupar e a se comover com os idosos e busca a espiritualidade em seus escritos. Nasce em sua alma uma Cora caridosa que lhe acompanhará no futuro.

Este foi um setênio em que ela se expressou muito através de sua máscara lírica, Cora Coralina, onde expunha suas ideias sobre a terra, preocupação com idosos, espiritismo, entre outros assuntos. Não escrevia poemas em versos com rima, mas uma prosa carregada de lirismo.

A família não incentiva sua vocação literária.

Teve um encontro importante com a amiga Leodegária, presidente do Grêmio Literário, confidente, única amiga que frequentava a Casa Velha e com quem teve inúmeras provas de solidariedade futura, embora tivessem  trajetórias pessoais e literárias opostas.

Traz em sua escrita a busca pela verdade no mundo. Escrevia sobre tudo o que gostaria de mudar, tais como as injustiças e os preconceitos. Já nesta época se preocupava e escrevia sobre os menos favorecidos, ou seja, aqueles que viviam nos becos.

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Continuaremos no próximo post, onde trarei a fase da jovem Cora Coralina e as aventuras que estão por vir no “Verão” de sua vida.

(baseado no livro Cora Coralina Raízes de Aninha de Clóvis Carvalho Britto e Rita Elisa Seda)

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